sábado, 27 de abril de 2013

Franciscanos atendem população de rua

Em janeiro passado, a modelo carioca Juliene Medeiros publicou esta foto e o texto abaixo no Facebook, tomada com seu celular, no bairro Campo Grande, Rio de Janeiro. Até hoje, estava com 4900 compartilhamentos.


Agora pouco eu tava voltando do medico e vi uma cena que nunca imaginei ver rs,
vários franciscanos, freiras ou monge não sei, limpando, cuidando dos machucados de mendigos, fazendo a barba deles tem noção do que é isso? '-' meu Deus é muito difícil você encontrar pessoas hoje em dia que fariam isso. Nem eu mesma sei se faria :|, mas não aguentei em ver isso pedi minha mãe pra voltar comigo e pedi para tirar algumas fotos deles fazendo isso. To ate agora mexida com isso, muitas pessoas hoje em dia não iriam fazer isso e umas simples pessoas fazendo isso com um enorme amor e carinho por vontade própria e com um lindo sorriso, nossa muito lindo. Que Deus abençoe a vida deles porque eles merecem. ISSO SIM É UMA COISA QUE MERECE COMPARTILHAMENTOS E CURTIS

sábado, 20 de abril de 2013

Psiquiatra aponta vazios científicos em projeto sobre drogas

L. F. Tófoli
Luís Fernando Tófoli, professor de Psiquiatria na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), critica a falta de base científica do projeto de lei sobre drogas do deputado Osmar Terra (PMDB-RS). Abaixo se transcreve o artigo do pesquisador, com suas 4 referências entre colchetes (veja o texto com os comentários dos internautas, no site da revista Carta Capital). Figuras inseridas pelo editor desta postagem.

O projeto aumenta a repressão ao tráfico, distingue a internação "compulsória" (por ordem judicial) e a "involuntária" (por ordem médica) e inclui as fazendas terapêuticas (por internação voluntária) como medidas a serem aplicadas em caso de dependência química. 

Veja também artigo do deputado Terra PL ajuda famílias a enfrentar o flagelo das drogas e o Parecer do CFP sobre o projeto citado.

Em suas manifestações públicas em relação ao projeto de drogas que redigiu, o deputado Osmar Terra (PMDB-RS), médico e ex-secretário de Saúde de seu estado, tem sido profícuo ao citar dados. Em uma declaração ao jornal O Globo, ao criticar o viés “ideológico” daqueles que objetam contra seu projeto, não hesitou em dizer que “cada parágrafo” dele seria “baseado em evidências científicas”.

Dados científicos são frequentemente incompletos, sujeitos a contingências metodológicas e difíceis de interpretar. A própria construção do que é uma evidência científica e a decisão de nortear políticas a partir delas são também opções ideológicas, embora os médicos não se deem conta disso. No século XXI já parece ser bastante claro que não existe Ciência absolutamente neutra, e que é na análise de estudos que apontam posições e resultados contraditórios que poderemos nos aproximar da realidade. Esse é, por excelência, o caminho possível no campo das políticas públicas sobre drogas.

O PL 7663/2010 de Osmar Terra – transformado no substitutivo do deputado Givaldo Carimbão (PSB-AL) – está longe de ser uma peça legislativa baseada em dados científicos inquebrantáveis.

Para começar, o projeto parte da concepção de que a dependência química é uma doença cerebral que leva a alterações permanentes causadas pelas drogas, uma doença para a qual não existe cura e para qual o único tratamento possível é a abstinência. Essa premissa é desafiada na literatura científica recente, e certamente não pode ser tomada como uma verdade para todos os casos. Como explicar, por exemplo, os vícios que não envolvem substância psicoativa, como o jogo patológico? Ainda que essa concepção da dependência fosse assumida como correta, caberia examinar se o projeto de lei, a fim de amenizar o terrível sofrimento social causado pelas drogas, está suficientemente assentado em evidências científicas.

Vejamos aqui algumas que foram ignoradas no processo de elaboração do PL.

Em SP, a internação de dependentes fica travada pela imensa procura (v. notícia)

  • Em primeiro lugar, o projeto faz uma grande trapalhada ao emaranhar dependência química com uso de drogas. A literatura mostra claramente que o contingente de dependentes das drogas ilegais mais comuns no Brasil é algumas vezes menor do que o número total de usuários. Políticas e eventuais medidas para estes grupos devem ser distintas. Ao misturar os conceitos, o projeto dá a chance, por exemplo, de que um usuário leve de maconha seja submetido a uma versão contemporânea da internação forçada apresentada no filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky.
  • Outra confusão feita pelo PL está na proposta de uma classificação das drogas por seu potencial de gerar dependência. A ideia é baseada em uma classificação feita pelo Reino Unido e não é delineada no texto legislativo, ficando para ser decidida posteriormente. Atualmente há críticas à própria classificação britânica, e um famoso estudo publicado na respeitável revista científica Lancet colocou em cheque a própria noção de que seriam as drogas ilegais as mais daninhas para o indivíduo e a sociedade [v. referência Álcool é mais nocivo que LSD].
  • Não bastasse isso, o projeto ainda aumenta a pena para tráfico de drogas, sem distinguir usuários de traficantes de forma objetiva. Considerando o desproporcional aumento de apenados por tráfico no Brasil dos últimos anos – muitos deles com um perfil muito mais próximo de usuários do que de traficantes perigosos – tomar uma medida como essa sem determinar critérios objetivos de distinção é bastante temerário, ainda mais se considerarmos que o próprio endurecimento legislativo pode ser confrontado. Por exemplo, na Europa, o consumo por adolescentes é menor em países onde há menores restrições para o porte e uso pessoal de drogas. 
A resposta que o deputado Osmar Terra tem dado – que é o de que os “aviõezinhos” iriam carregar somente a quantidade permitida para porte e que “ninguém mais vai ser preso” – não é condizente com os dados do Observatório Europeu de Drogas e Dependência [v. referência 2], que mostra que em países que se tornaram menos rigorosos com o uso e porte de drogas, as prisões por tráfico não diminuíram.
O autor do projeto já disse que as ações de consultório na rua – proposto como uma das alternativas às duas únicas formas de tratamento presentes no PL, a internação compulsória e o acolhimento voluntário em comunidades terapêuticas – não têm evidência de efetividade.

Pode ser que o enfoque das provas científicas feito pelo deputado revele também um viés ideológico, já que o mais respeitável repositório de Medicina baseada em evidências, a Biblioteca Cochrane, indica que não há provas suficientes [v. referência 3] para apoiar o modelo das comunidades terapêuticas no tratamento da dependência química. Além disso, segundo afirma Gilberto Gerra, do Escritório das Nações Unidas para o Crime e Drogas [v. referência 4], também não há evidências que justifiquem o uso de internações forçadas a não ser em situações críticas de risco de vida e quando outras tentativas não tiverem dado certo – o que, aliás, já determina a atual lei brasileira que dispõe sobre os tipos de internação psiquiátrica.

Há muitos outros pontos problemáticos – como o financiamento de entidades religiosas, o cadastro de usuários de drogas, as formas estranhas de regulação de um sistema de tratamento paralelo ao Sistema Único de Saúde, só para citar alguns. Num projeto tão questionado – rejeitado ou fortemente criticado por notas técnicas do Governo e por ONGs, por pareceres de entidades como a Fundação Oswaldo Cruz, o Instituto dos Advogados Brasileiros e o Conselho Federal de Psicologia, e até pela opinião de políticos de posições opostas na arena eleitoral como o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) – a presença de evidências científicas que contradigam seus parágrafos deve ser mais um elemento para, no mínimo, refrear o regime urgente em que o projeto tramita e, no limite, sepultá-lo em definitivo na busca de respostas mais consensuais.

Mas, no Brasil, onde “política baseada em evidências” se confunde com “evidências baseadas em política” e a mídia – com honrosas exceções – ajuda mais a embaralhar e estigmatizar a questão do que estimular o debate qualificado (v. artigo A Imprensa Entorpecida, por L. F. Tófoli), é bem possível que as evidências sejam soterradas pela urgência política vinculada ao atual projeto em tramitação. Aguardemos para ver o que os legisladores brasileiros têm a responder diante deste projeto que representa um conjunto de retrocessos míopes à pesquisa científica e às reais e sérias demandas de cuidados que a questão do uso problemático de substâncias impõe a este país.

Em MG, usuário menor poderá ser internado por ordem judicial (v. notícia)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Distrito Federal amplia serviço à população de rua

Criação do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento
da Política para Inclusão da População em Situação de Rua
O MDS (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome) publicou, ontem (16), a notícia de que o governo do Distrito Federal acaba de criar um grupo intersetorial para monitorar a realização das políticas públicas para a população de rua (v. GDF instala comitê gestor de acompanhamento da Política Nacional para População em Situação de Rua).

Composto por 12 representantes de órgãos do governo do DF e 12 da sociedade civil, o grupo deverá observar o acesso aos serviços públicos e garantir a articulação da rede de proteção a essa população. As reuniões serão bimestrais.

Participaram da solenidade a secretária nacional de Assistência Social do MDS, Denise Colin, o governador do DF, Agnelo Queiroz, o representante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Gabriel Rocha, o secretário de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do DF, Daniel Seidel, e a representante do Movimento da População em Situação de Rua, Antônia Abreu.

Entre as ações do MDS para atender a população de rua, Denise Colin citou: o mapeamento das famílias que se encontram nessa situação, realizado pela Secretaria Nacional de Assistência Social (SNAS), e a implantação dos Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros POP).

Com a criação do grupo de trabalho para articular as políticas e fortalecer o controle social, o DF é a primeira unidade da federação a aderir oficialmente à Política Nacional para População em Situação de Rua no País (v. notícia do Portal Brasil). A Política foi formulada em maio de 2008 (leia o documento) e oficializada pela Presidência da República no Decreto 7053, de dezembro de 2009.

O governador do DF também anunciou novas medidas para apoiar a população em situação de rua. Entre elas, a inauguração de dois Centros POP (em Ceilândia e em Taguatinga) e a ampliação do Serviço de Abordagem Social, que funcionará todos os dias, inclusive em recessos e feriados. Mais três unidades de acolhimento 24h, para abrigamento de pessoas em situação de rua por até 90 dias, estão em construção em Ceilândia, Planaltina e São Sebastião (v. notícia do governo do DF).

Pessoas em situação de rua têm, desde 2009, o amparo de uma Política Pública.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Curso sobre população em situação de rua (RJ)


Curso organizado em parceria entre o Forum de População em Situação de Rua e o Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (NEPP-DH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O endereço eletrônico do Núcleo é diretoria@nepp-dh.ufrj.br.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Centro Pop, 2 anos em Pelotas

O CREAS Pop completou, dia 1 de abril passado, dois anos de funcionamento, atendendo população adulta em situação de rua, em Pelotas. A festa foi ontem (9) com um almoço de confraternização entre usuários e funcionários. Leia a seguir trechos da matéria oficial da Prefeitura (v. texto completo).


Em um almoço que reuniu cerca de 30 usuários, equipe da casa e representantes da Secretaria de Justiça Social e Segurança (SJSS) comemoram a data. No espaço, os 398 cadastrados se cruzam. Há alguns que frequentam diariamente, outros se revezam no uso da casa. São, em média, 30 por dia, das 11h às 17h.

A refeição oferecida diariamente é o café da tarde. Mas quem frequenta garante o almoço do dia seguinte no Restaurante Popular.

A supervisora da casa, Vanderlita Aguirre Leal, orgulhosa, fala sobre as vitórias alcançadas depois da criação do local, [...] acrescentando que diversos usuários já foram inseridos no mercado formal de trabalho e voltaram a estudar.

A história de cada usuário do Centro tem suas peculiaridades, um começo original. Mas acabam se fundindo. A faixa etária predominante é dos 20 aos 40 anos, mas é possível encontrar idosos entre os usuários. São poucas as mulheres que frequentam a casa. Eventualmente se vê alguma por lá.

A maioria, por falta de opção, acaba cuidando carro nas ruas. Muitos são dependentes químicos. Alguns dizem não usar ‘nenhuma droga, só bebem’. Tem os que perderam o contato com a família. Tem até os que dividem o dinheiro que ganham igualmente – metade para a família, metade para o crack.

Carlos fazia pintura, instalava gesso cartonado, tinha emprego formal e casa própria. Conta que foi expulso de casa com a família por homens armados, que queriam o espaço como ponto de tráfico. Depois de levar oito tiros foi para as ruas, onde cuida automóveis. Os três filhos, que teve com três mulheres, moram com as mães. Diariamente manda dinheiro para a mulher, por um vizinho que também é cuidador no centro. O mais velho já está na faculdade. “Às vezes ele vai me ver e chora, mas eu digo que cada um tem o seu caminho”, conta.

Luís Gilberto chegou de Campinas do Sul (RS) há 3 anos.
José é palhaço, no sentido original da palavra, mas triste conta que perdeu as roupas pelas ruas. Tem um filho de quatro anos que mora com a mãe. “Eu a amo e ela diz que me ama. O que eu faço?”. Diz não saber a razão de estarem separados, mas no meio da conversa deixa escapar o incômodo que causa por beber muito. “Eu já fiquei quatro dias sem beber”, completa.

Luis tem 35 anos. Ele não conheceu o pai. Com um ano e meio a mãe o entregou aos avós, com quem viveu até os 12 anos. Quando seus avós se separaram ele passou a viver nas ruas. Parou de estudar. Há três anos veio para Pelotas com uma empresa contratada pelo SANEP para a instalação de rede de esgoto. Aqui se apaixonou e quando o trabalho terminou decidiu ficar. Por um tempo usou crack, mas agora garante que não, que está forte. Tem três filhos, em diferentes cidades. Faz ‘bicos’ com pintura e jardinagem, mas diz que quer ‘arrumar os dentes e fazer um curso de garçom’. “Eu sempre trabalhei”, mostrando as mãos marcadas pelo trabalho pesado, e justificando que tem medo de não ter condições de fazer isso quando for mais velho. E afirma que não quer passar os anos dependendo dos outros, com um futuro incerto.
Fotos: R. Marin (Prefeitura)
Texto: Alessandra Meirelles

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Homendigo (poema)

A crueldade está por toda parte da pequena cidade, com suas vísceras espalhadas pela calçada, sua eterna morada...

Um ser que como eu, nasceu
como você, cresceu
deu seu primeiro passo
 para na vida ocupar espaço.

Desde que conseguiu falar
até hoje não conseguiu se expressar.
Antes apenas um menino,
agora um bicho sem destino.

Viu o sorriso das crianças
ao andarem de balança,
do fundo surgiu uma falsa esperança,
sentiu que podia ter de volta sua infância,
pura ignorância!

No luar frio sentado no chão
que deixa em pedra seu coração,
nem uma alma viva na noite da imensidão
ele sozinho contempla a escuridão.
Criatura que não está mais a espera de compaixão,
jamais aceitaria o nosso pedido de perdão.

Percebeu que seu fim se aproximava,
a foice o esperava na calçada.
Os mesmos garotos que lhe deram esperança,
hoje alimentam-se de seus gritos,
e se aquecem sorrindo do fogo
que sai de seu fétido corpo encardido,
misturando-se com o enxofre de sua nova morada!

Fábio Zündler

Texto tomado do blogue de poesia Insanos Caminhos do Pensamento

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Reportagem jovem fala com moradores de rua

A ONG CAMP promove um curso de vídeo para jovens gaúchos, ensinando técnica de produção de filmes e novas formas de exercer a cidadania (v. nota). Neste vídeo do Projeto Lente Jovem, a entrevista com moradores de rua em Porto Alegre buscou saber como sobrevivem na rua, quais suas formas de pensar e seus projetos pessoais. Veja mais produções no canal lentejovem.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Biblioteca para moradores de rua


Agora com a denominação oficial de Centro Pop, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População de Rua inaugurou nesta quarta (17) a biblioteca Das Ruas a Caminho do Saber, em presença de usuários, da equipe de funcionários e da Secretária de Cidadania e Assistência Social, Elizabeth Marques Dias. O espaço conta com livros, revistas, gibis, um televisor e um aparelho de DVD, doações provenientes da comunidade.

A informação provém do Diário Popular (leia notícia redigida por Osíris Reis), que neste caso se adiantou na internet em duas horas ao portal da Prefeitura (leia nota oficial, escrita por Tatiana de la Torre). Aqui no blogue, apresento em conjunto os dados e as fotografias das duas origens.

Com usuários do Pop, Marta, Vanderleia, Sílvia e Elizabeth
O projeto da biblioteca foi desenvolvido no Centro Pop pela estagiária de Serviço Social, Vanderleia Dias Murias, com a orientação da assistente social Marta Moura. O centro é dirigido por Sílvia Chaigar e inclui na equipe técnica a psicóloga Vanderlita Leal.

O objetivo da biblioteca é incentivar o apreço dos moradores de rua pela leitura. A possibilidade de ler e de educar o pensamento e a imaginação é oferecida a estes cidadãos como parte do trabalho de incentivá-los a construir novos projetos de vida.

A casa municipal oferece desde abril de 2011, de 11h a 17h, encaminhamentos para a rede pública de serviços, lan house própria, guarda de pertences e higiene pessoal, e desde 2012 atividades do Programa de Educação para Jovens e Adultos (PEJA).

O atendimento diário chega a 30 pessoas, e mensalmente o número de usuários que frequentam o centro é em torno de uma centena, quase totalmente de sexo masculino.

Um dos usuários do Centro, Ricardo Guimarães, 53 anos, declarou à repórter:
Sou pescador e gosto de ler sobre o assunto, já li vários livros do escritor Amir Klink, que viaja pelo mundo sozinho em seu barco. Estou utilizando o Centro para refazer meus documentos e poder retomar a vida. 
Fotos: J. Rivero (1, 3) e P. Rossi (2)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um encontro de otimismo com o cantor Rodrigo Madrid

Hoje, quinta 8 de dezembro, o cantor de música regional Rodrigo Madrid interpretou diversas músicas no CREAS Pop, deixando-nos com uma energia positiva e mais dispostos a seguir caminhando.

Com músicas como Vira Virou, Semeadura, Gostava tanto de você, Céu sol sul, Vento negro e Milonga pra mim, Rodrigo animou a conversa com histórias e piadas, elevando nossos espíritos, tanto dos oito trabalhadores presentes como de uma dúzia de beneficiários do serviço. Depois de um cafezinho com a equipe, ele ainda tomou fotos conosco no pátio, confirmando a amizade iniciada há quatro meses

Naquela primeira visita, em 30 de agosto deste ano, o amigo manifestou sua simpatia pelo projeto social do CREAS Pop e se dispôs a seguir colaborando. No mesmo dia, ele postou uma nota de apoio em seu site Rodrigo Madrid.net.

Fotos de F. A. Vidal

domingo, 30 de outubro de 2011

Preciso lembrar que eu existo

Um grupo de 14 usuários do CREAS Pop de Pelotas (na foto) assistiram, quinta 27 de outubro, a um clipe com a música "Sentado à beira do caminho". Cada um recebeu dois versos num papel e disse em voz alta sua opinião sobre essa letra de Erasmo e Roberto Carlos, associando-os com suas próprias vivências.

O desânimo de que fala a música foi visto como uma angústia antiga do personagem, mas que não por isso deveria levar à passividade. Segundo os comentários dos presentes, é melhor confiar na esperança, nunca desistir, não perder tempo, ir atrás do que se quer.

Houve acordo em que acabar logo com isto não significa matar ou morrer, mas sim recuperar a própria existência, talvez perdida, talvez nunca conhecida (lembrar que eu existo).

O heterogêneo grupo participante - que é parte dos 50 usuários que vêm ao centro com mais frequência - são em maioria homens (90%), metade afrodescendentes e de diversos níveis educacionais (desde o analfabetismo até o ensino médio incompleto). Veja abaixo a letra, o clipe e os comentários.

Eu não posso mais ficar aqui a esperar
que um dia, de repente, você volte para mim
[É preciso correr atrás, não perder tempo, tomar uma atitude]

Vejo caminhões e carros apressados a passar por mim,
estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim
[Morar na rua, cuidando carros, se vê um caminho sem esperança, uma busca sem fim, não se vê o fim nem o rumo]

Meu olhar se perde na poeira dessa estrada triste,
onde a tristeza e a saudade de você ainda existe
[Ele perde alguém e sente saudade. Lembrança da poeira no Estradão]

Esse sol que queima no meu rosto um resto de esperança
de ao menos ver de perto o seu olhar, que eu trago na lembrança
[Tem que ter sempre esperança, nunca desistir. Sempre tem uma luz no fim do túnel, a cada nascer do sol tem uma esperança]

Preciso acabar logo com isto,
preciso lembrar que eu existo

[Até quando verei meu povo se perdendo, não se valorizando?
Quando olho pra mim também penso se vale a pena]

Vem a chuva, molha o meu rosto e então eu choro tanto,
minhas lágrimas e os pingos dessa chuva se confundem com meu pranto.
[Saudade, tristeza. A chuva é como as lágrimas de Deus]

Olho pra mim mesmo, me procuro e não encontro nada,
sou um pobre resto de esperança à beira de uma estrada.
[Procurando um ideal, mas só acha depressão.
Tenta se achar e não consegue, anda perdido]

Preciso acabar logo com isto,
preciso lembrar que eu existo.

[Precisa acabar com o sofrimento. Uma forma é buscando a Deus]

Carros, caminhões, poeira, estrada, tudo se confunde em minha mente,
minha sombra me acompanha e vê que eu estou morrendo lentamente.
[A sombra é o reflexo do personagem. Depende dele morrer ou não]

Só você não vê que eu não posso mais ficar aqui sozinho,
esperando a vida inteira por você, sentado à beira do caminho.
[Magoado, angustiado, desistiu ou está pensando em desistir]

Preciso acabar logo com isto,
preciso lembrar que eu existo.

[Procurar novos caminhos]


Manhã de sábado

O escritor Manoel Soares Magalhães publicou no dia 25 de junho deste ano a seguinte crônica em seu portal de notícias CultiveLer.com (veja o post).

Havia pressa no andar. O cão, desses sem grife, disparava pela calçada levando à boca um pedaço de pão. Às vezes parava, coçava-se desesperadamente, olhando em derredor, para logo prosseguir a corrida.

Atravessou a rua, quase sendo atropelado por um carro. Assustado, apressou a corrida, entrando na Praça Coronel Pedro Osório, indo em direção à Fonte das Nereidas. Ultrapassou o redondo da praça, pegando a alameda que conduz à esquina que dá para o Teatro Guarany. Num salto atravessou a rua, pegando a calçada do teatro.

Logo estava à frente do velho Guarany, onde havia alguém deitado sob um velho e surrado edredom. Sentou-se, largando o pedaço de pão. Espantou mais algumas pulgas, olhando à volta. Encostou o focinho no corpo do morador de rua, fechando os olhos. O pedaço de pão ficou ao seu alcance.

A manhã fria, sem sol, deixava o ambiente ainda mais triste e desolado. Sempre que alguém se aproximava o vira-lata abria levemente os olhos, atento a tudo. Cumpria com zelo sua função de vigilante.

A pessoa sob o edredom mexeu-se. O cão grunhiu levemente, erguendo-se, olhos atentos aos movimentos do dono, cutucando-o com o focinho duas ou três vezes. Como o dono se manteve quieto, o cão tornou a deitar-se, não antes de espantar mais algumas pulgas.

Um gato miou no outro lado da rua, enfiando-se no porão de um casarão. O vira-lata ergueu a cabeça, ladrando baixo, mais por hábito do que por não gostar de felinos. O porteiro do teatro apareceu à porta, erguendo a gola da japona. Olhou o mendigo, balançando a cabeça. Tornou a entrar, fechando a porta atrás de si.

O morador de rua tornou a se mexer, afastando o edredom que lhe cobria a cabeça. Era um negro de cabeça raspada, velho. O cão grunhiu outra vez, aproximando-se das pernas do dono, o qual se encolheu, abraçando-o. Outro cão aproximou-se. Era grande, peludo e aparentemente velho. Seu pelo estava embarrado. Uma coleira de couro pendia em direção ao chão.

Parou numa distância de dois metros do morador de rua. O vira-lata ergueu a cabeça, mostrando os dentes ao recém-chegado. Dentes grandes e amarelos. Os olhos faiscaram.

— Calado, Pimenta — gemeu o dono.

Pimenta, porém, não estava satisfeito com a chegada de um rival. Pôs-se de pé, arreganhando os dentes, através dos quais a baba da raiva escorreu. Incontinente, abocanhou o pedaço de pão, olhando firmemente o intruso, que, pacientemente, sentou-se na calçada, limitando-se a olhar o pequeno e feroz vira-lata.

— Me deixa dormir, Pimenta! — tornou o dono, mexendo-se sob o edredom.

O cão, todavia, se mantinha rosnando, olhando de soslaio o cachorro invasor, que, displicente, resolveu erguer-se. Espantou suas pulgas e, indiferente, foi-se calçada afora, sem olhar para trás. Pimenta, por sua vez, não largou o pedaço de pão. Deitou-se outra vez, mas o fez com a sua e a comida do dono firmemente presa à sua boca.

Fechou os olhos. Ambos permaneceram quietos, indiferentes à vida que acontecia à volta. O outro cachorro seguiu até a esquina, parando. Olhou na direção do vira-lata. Lambeu-se, coçou-se, e dobrou a esquina. Longe o ruído de uma sirene quebrou o silêncio da manhã de sábado.
Fotos: F. A. Vidal (1) e M. Magalhães (2)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Alguém que esteja sempre com você

Não estou disposto a esquecer seu rosto de vez
e acho que é tão normal.
Dizem que sou louco por eu ter um gosto assim
gostar de quem não gosta de mim.

Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver
alguém que você gostaria que estivesse sempre com você
na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.