domingo, 26 de junho de 2011

Arte de rua pode combater o vandalismo

O grafite de rua poderá ser um aliado contra as pichações ilegais em Porto Alegre (RS). A ideia, que surgiu em março passado na Câmara da capital gaúcha (veja notícia), consiste em mapear os prédios e equipamentos públicos que poderão ser usados por grafiteiros, para evitar o vandalismo.

Na ocasião, o presidente da Comissão de Saúde e Meio Ambiente (COSMAM) da Câmara, vereador Thiago Duarte (PDT), salientou que pichação não é o mesmo que grafite, técnica em que se desenham painéis temáticos contemporâneos. Um banheiro público da Capital já foi adotado por grafiteiros e não sofreu mais vandalismo.
A pichação é mais agressiva e desestruturada, e é considerada - pelo menos em Porto Alegre - infração à Lei Ambiental, com penas de detenção entre 3 meses e 1 ano, prestação de serviço à comunidade ou reparação de dano.

Em Pelotas, há grafitagem dos dois tipos, e muitos grafiteiros já usam prédios abandonados ou sem uso para deixar suas mensagens, sem distinguir se a propriedade é privada ou pública, ou se a pintura foi solicitada ou não. Na garagem da esquina da Gonçalves Chaves com General Argolo (abaixo), os artistas ocuparam em 2010 todas as paredes externas, mas o dono as apagou meses depois.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Logos de CRAS ao longo do Brasil

Os centros de referência de assistência social têm ido aparecendo ao longo do Brasil, definidos por políticas públicas e administrados pelos municípios, em parceria com o governo federal. Sejam eles CRAS (de proteção social básica) ou CREAS (focados em certos programas de proteção social especial de média complexidade), buscam chegar aos usuários de diversas formas, como a busca ativa e a divulgação informal pessoa a pessoa.

A publicidade é uma opção pouco utilizada, talvez porque a clientela da assistência social não seja tradicionalmente muito focada por campanhas públicas, ou porque a própria publicidade tenha um viés comercial em nossa sociedade.

Em todo caso, o uso de logos especiais já começa a ampliar-se nos serviços públicos. Um desenho simples com uma casa e figuras humanas em cores serve de base para difundir a imagem dos CRAS ante a população-alvo.

Alguns exemplos encontrados na internet são os de Itápolis (SP), Utinga (BA) e Sertanópolis (PR), nas três imagens desta nota, nessa mesma ordem.

Em todas elas, uma casa simboliza proteção e segurança, um sol brilhando sugere que as oportunidades positivas podem surgir para todos, independentemente da história ou da situação presente, e as pessoas são representadas por duas grandes e uma pequena, simbolizando homem, mulher e criança. O céu, a terra e o ser humano.

O conceito de família nuclear é bem simples e preciso, mas é uma referência, ainda que ideal, um modelo a ser alcançado pela vivência e pela convivência. Sabemos que na realidade social costumam faltar os representantes concretos de pai e mãe, mas na mente humana persistem esses símbolos, que são a figura adulta de nosso próprio sexo ou gênero, e a figura adulta do sexo oposto.

Essas são as pessoas a serem atendidas pelo sistema: nosso lado adulto e nosso lado criança, o ser independente em permanente emancipação e desenvolvimento, e o ser carente, em processo de aquisição de instrumentos pessoais.

domingo, 1 de maio de 2011

Uma pessoa invisível pode ser muito chamativa

Na Avenida Independência, em Porto Alegre, muitos sem-teto passam a noite ou até mesmo algumas horas do dia dormindo. Este domingo (1), Dia Internacional do Trabalho, um deles achou um espaço de seu tamanho e se fez muito chamativo em sua invisibilidade. A tarde estava ventosa e algo fria, o que explica a necessidade de cobrir todo o corpo para manter a temperatura na breve sesta.

A cidade tem um centro municipal para atendimento de população de rua (estimada hoje em cerca de 1800 pessoas). Mas o serviço de abordagem ao parecer não trabalha nos domingos, e os que não querem ser abordados usam essas frestas do horário para dormir em relativa paz. Há muitos que não desejam atendimento social, que costuma colocar regras e diretrizes para sair da vida de rua.

Em um mês de trabalho no CREAS Pop de Pelotas (de 1 a 29 de abril), já vimos 3 pessoas em situação de rua (sem moradia nem emprego) que pediram internação psiquiátrica no Hospital Espírita, com o fim de receber tratamento (um com sintomas de esquizofrenia, um com alcoolismo e um com uso de crack). Pelo menos por um período, os carentes têm lá habitação, comida e roupa. Dois deles já conseguiram.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pessoas invisíveis por trás do trabalhador de rua

Há cerca de 12 anos, o estudante da USP Fernando Braga da Costa começou um trabalho para a disciplina de Psicologia Social, que com o tempo se transformou em pesquisa de mestrado e doutorado. A proposta inicial era realizar uma observação participante, assumindo durante um dia um ofício reservado a pessoas pobres.

Fernando escolheu ser gari na própria universidade, por aquele dia, mas continuou o estudo por mais uma década, vestindo uniforme, varrendo, limpando ruas e fossas, debaixo de chuva ou sol. Na foto à direita, ele é o jovem de pele clara, ao lado dos "verdadeiros garis" (leia entrevista).

Em nível de pós-graduação, o psicólogo desenvolveu a tese sobre a “invisibilidade pública”: em certas funções como faxineiro, ascensorista, empacotador e gari, a sociedade só percebe o uniforme e não enxerga a pessoa do trabalhador.

A tal ponto chega a invisibilidade de quem se uniformiza nesta função, percebida como socialmente inferior, que a mesma pessoa pode ser reconhecida e cumprimentada quando aparece como ela mesma e, momentos depois, pode ser ignorada se estiver vestida como gari ou lixeiro. Foi o que o pesquisador observou, desde o início. Até os animais têm um nome próprio, mas um lixeiro é visto pelo público como uma coisa amorfa.

A investigação social se traduziu, em 2002, na dissertação de mestrado "Garis: um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública" (leia o resumo) e posteriormente uma tese de doutorado ( (veja a notícia da ISTOÉ Gente sobre a publicação do livro Homens Invisíveis – Relatos de uma Humilhação Social, Editora Globo, 2004).

terça-feira, 26 de abril de 2011

A fábula da convivência

Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Ante essa situação, os porcos-espinhos resolveram juntar-se em grupos, para assim se agasalhar e se proteger mutuamente.


Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor, e decidiram se afastar uns dos outros.

Por isso começaram de novo a morrer congelados, e precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros.


Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro. E assim sobreviveram.


Moral da história:
O melhor relacionamento não é o que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro, e admirar suas qualidades.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A equipe inicial do Pop-Rua

Sexta-feira 4 de fevereiro, recém-chegada de férias a coordenadora Sílvia Chaigar, ficou definida a equipe inicial do projeto CREAS Pop-Rua de Pelotas (Centro de Assistência Social para População de Rua) com duas assistentes sociais, um psicólogo e uma educadora social. Naquela manhã tivemos nossa primeira reunião (foto abaixo), que foi uma conversa para lançar ideias e conhecer nossas disposições pessoais. A partir da direita: Beatriz Garcia, Mariglei Argiles, Aline Silva e Francisco Vidal.

Cada um de nós tem alguma qualificação profissional em sua área, seja em serviços de média ou alta complexidade social/mental, mas nenhum traz experiências com população de rua, que é uma área de trabalho nova para muitos técnicos.

No entanto, já estamos pesquisando informações e esboçando um plano de ação. Experiências valiosas nos foram relatadas por Aline Leal, psicóloga que desde junho passado vinha pensando no projeto e participou de um encontro de CREAS em São Leopoldo (nesta nossa reunião ela esteve presente e bateu a foto).

Para contribuir mais ainda nesta pesquisa foi aberto este blog, destinado a embasar o trabalho do CREAS Pop-Rua de Pelotas e manter a comunidade informada. O endereço é fácil [poprua.blogspot.com] mas o Google não ajuda a achar.

Segundo a Norma Operacional Básica do SUAS, cada centro de referência especializado (CREAS) com capacidade de atendimento para 80 pessoas requer (além dos 4 acima citados): um coordenador próprio, um segundo psicólogo, um advogado, 4 profissionais para abordagem e dois administrativos (baixe aqui o documento NOB-RH 2007, v. pág. 22). Calcula-se que em Pelotas haja entre 150 e 200 moradores de rua, de acordo às porcentagens já observadas em cidades de mais de 250 mil habitantes. Comparando com metrópoles, somos uma cidade pequena, mas isso não significa que este trabalho seja fácil ou rápido.

Pela norma oficial para municípios em Gestão Plena, estamos ainda com um terço da equipe mínima de 12 funcionários, mas é preciso começar com pouco e esperar o andar da carruagem. Como seria se já de saída tivéssemos uma dupla de psicólogos, uma de assistentes sociais, uma de educadores, um enfermeiro e um advogado? Luxo demais?

Após a primeira saída de campo (visita à Casa de Passagem, na terça 8), tivemos nossa segunda reunião no CREAS, na quinta 10 (última foto, tomada por Márcia, psicóloga do CREAS), quando esboçamos por escrito as linhas gerais do projeto. Ele deve passar por outras opiniões até ser apresentado ao Conselho Municipal de Assistência Social.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Desgarrados (Mário Barbará)

Eles se encontram no cais do porto pelas calçadas,
Fazem biscates pelos mercados, pelas esquinas,
Carregam lixo, vendem revistas, juntam baganas
E são pingentes nas avenidas da capital.

Eles se escondem pelos botecos entre os cortiços
E pra esquecerem contam bravatas, velhas histórias.
Então são tragos, muitos estragos, por toda a noite:
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho.


Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade,
Viram copos, viram mundos,

mas o que foi nunca mais será...
mas o que foi nunca mais será...


Cevavam mate, sorriso franco, palheiro aceso,
Viravam brasas, contavam causos, polindo esporas,
Geada fria, café bem quente, muito alvoroço,
Arreios firmes e nos pescoços lenços vermelhos.

Jogo do osso, cana de espera e o pão de forno,
O milho assado, a carne gorda e a cancha reta.
Faziam planos e nem sabiam que eram felizes:
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho.


"Desgarrados", de Sérgio Napp e Mário Barbará Dornelles, ganhou a 11ª Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul em 1981.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

De cães e mendigos (crônica)

O escritor pelotense Manoel Soares Magalhães publicou esta crônica na terça-feira 6 de julho de 2010 (leia os comentários no blog Amigos de Pelotas).

Como gosto muito de caminhar - de preferência muito cedo -, percebo que os moradores de rua, nos últimos anos, aumentaram consideravelmente em Pelotas. Amanhecem sob as marquises, nos vãos das portas ainda não gradeadas, via de regra na companhia de seus guardiões, os cachorros.

Chega a ser comovente a forma como velam o sono dos mendigos, de todos os sexos e idades. À frente do Campo do Esporte Clube Pelotas, na Avenida Bento Gonçalves, abaixo do portão central, cinco ou seis moradores de ruas se aninham, aquecendo-se como podem, buscando no sono a libertação de suas amarguras cotidianas. Em derredor os cachorros, de todos os tamanhos, vigilantes, dormindo ou catando pulgas.

Por isso sou obrigado a reconhecer que são, realmente, os melhores amigos do homem, pois aceitam a miséria que lhes é imposta para permanecer na companhia de seus donos, que não pode lhes dar nada, exceto carinho. Às vezes paro para observar-lhes o olhar, do qual pinga mel de tanta veneração que têm pelas almas errantes que, dia após dia, seguem pelas ruas da cidade na dolorosa faina de sobreviver num mundo cada vez mais duro e excludente.

Dias atrás, tomando café no Aquário, vi adentrar um desses anônimos que vagabundeiam pela cidade, dirigindo-se à caixa. Enfiou esquálida mão no bolso, do qual emergiu amassadas notas. Pagou o direito de tomar um cafezinho como todo mundo, acotovelando-se no balcão.

Claro que se abriu ao seu redor um clarão, pois seu cheiro, digamos, não era dos mais atraentes. Chegada sua vez, serviram-lhe o cafezinho. Em vez de tomar, pegou a xicrinha e, com desenvoltura, levou-a a rua. Foi em direção à Caixa Econômica, onde, sentado no chão, costas à parede, esperava seu companheiro, retinto negro de olhar esfaimado, com a perna direita enfaixada.

Estendeu-lhe a xícara, que foi pega por hesitante e trêmula mão. À volta, claro, quatro ou cinco cães, línguas de fora, esperando o desenrolar da história. O negro tomou o cafezinho lentamente, sorrindo satisfeito, entregando depois a xícara vazia ao seu companheiro de infortúnio, que girou sob os calcanhares e foi em direção ao Café.

Deixou a xícara no balcão e, tranquilo e sorridente, abandonou o recinto, dirigindo-se na direção do amigo, ajudando-o a erguer-se. Seguiram manquejando pela Sete de Setembro em direção à Anchieta. Os cães, alegres, seguiram-lhes os passos. Logo desapareceram na esquina.

Fiquei parado na porta do Café, aturdido diante do gesto de grandeza que presenciara. Segui depois em direção à Praça Coronel Pedro Osório com sensação de solidão, querendo, talvez, a companhia de um cão pulguento e sarnoso, e, de quebra, alguém com o coração generoso a seguir-me os passos, mesmo em demanda do abismo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Na rua (animação)

As crianças sem lar de ontem são os moradores de rua de hoje.

As crianças de rua de hoje poderão ser os adultos sem lar de amanhã.

Vídeo premiado com Menção Honrosa de melhor animação em outubro de 2008. Direção de Ivan Mola.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Como é bom se sentir acompanhado!

O sacerdote jesuíta chileno Felipe Berríos assinava, ao redor do ano 2005, uma coluna no jornal El Mercurio de Santiago do Chile, um de cujos textos levou o título: "O sentido do Natal" (leia o original El Sentido de la Navidad).

Lembro quando eu era seminarista e estudava Teologia no centro jesuítico. Era véspera do Natal e eu passava defronte a um edifício próximo a nossa casa, no centro de Santiago.

Nisso, ouvi gritos e vi um mendigo sendo expulso pelo portão. Nós conhecíamos todos os que diariamente batiam nas portas pedindo ajuda, e este era um que chamávamos de Filósofo: ele mereceu o apelido porque lia muito e costumava comentar os artigos da nossa revista. *

Com sua longa barba e roupas esfarrapadas, o Filósofo caiu na calçada, sem se machucar, mas estava alterado e se sentia ferido em sua dignidade. Saímos caminhando e eu tentava acalmá-lo, dizendo que era Natal e não valia a pena se incomodar. Ele falava da sua humilhação em ser tratado como um bicho, principalmente pelo seu aspecto e porque mendigava.

Chegamos perto da minha casa, já mais calmo ele, e eu perguntei se ele queria comer alguma coisa. Disse que não, mas ele é que ia me convidar.

Sem esperar a resposta, tirou de um dos sacos uma garrafa plástica das grandes, sem gargalo, engordurada por fora, cheia de comida que ele havia recolhido das lixeiras da rua: restos de peixe, de torta, de arroz, pão, tomates.

Sentamos no meio-fio para a nossa refeição. Usando um pão como colher, o Filósofo me ofereceu a primeira porção. Não sei que cara fiz, mas ele disse:

— Não se preocupe, padre, é comida fresca. Recém tirei do lixo.

Fiz um esforço e engoli aquele primeiro pedaço, que foi o mais difícil. O que mais me desagradou foi perceber, com a língua, caroços de azeitona deixados por alguém naquelas sobras. No final, o Filósofo me agradeceu a companhia no almoço e disse:

— O senhor não tem ideia como é bom se sentir acompanhado.

Eu também lhe agradeci pela companhia, mas o que ele nunca soube é que eu agradecia muito mais por ter sentido a profundidade daquele Natal: o fato de que o Filho de Deus vem compartilhar nossa humanidade, nascer entre nós para fazer-se como nós, sem se envergonhar da nossa condição humana.

Assim como aquele mendigo, nós humanos podemos dizer com alegria, ao sentir em cada Natal o Filho de Deus junto de nós:

— Vocês não têm ideia como é bom se sentir acompanhado!

* Revista Mensaje, publicação mensal dos jesuítas
Foto: Ronaldo Mitt (Flickr)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Morador de rua deseja um mundo melhor

O Governo Lula foi o primeiro a definir uma política nacional para moradores de rua, em dezembro de 2009 (veja o Decreto nº 7053). Pouco antes da mudança de governo, em dezembro de 2010, Maria Lúcia Santos Pereira — integrante do Movimento Nacional da População de Rua (Salvador da Bahia) — foi convidada para falar aos dois governantes - o Presidente e a sucessora (leia notícia).

O impresso O Trecheiro publicou um resumo escrito depois por ela, com o título "De frente com o Presidente" (os grifos são meus).

Durante muitos anos da minha vida, senti o desprezo e o descaso de uma sociedade que se dizia democrática e partidária. Ao entrar de cabeça no Movimento Nacional da População de Rua, de uma certa forma, foi um grito de liberdade e do desejo de ver um mundo melhor. Vontade de me sentir humana de novo, pois as ruas tiram toda a nossa dignidade e identidade.

Em 2009, tive o prazer de sentar perto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e vê-lo assinar o Decreto das Políticas Publicas da População de Rua, que, a meu ver, é nossa carta de alforria, pois éramos escravos do descaso e da discriminação da sociedade. Num momento pude ver de perto o rosto de um homem que havia olhado para o nosso sofrimento, que nos possibilitou sair da invisibilidade rumo ao protagonismo.

Ao ser convidada para fazer um discurso de agradecimento ao presidente Lula e, ao mesmo tempo, sensibilizar a presidente Dilma, em 2010, me deu um pavor imenso. Como colocar em palavras tanta gratidão, como expressar a alegria de milhares de companheiros, que haviam voltado a sonhar novamente. [...] fiquei a relembrar as partilhas, as reuniões, o brilho dos olhares que trocamos, as euforias dos planejamentos, as estratégias que idealizávamos. Pois foi isso que Lula nos deu: a vontade de lutar, a força para gritar, o desejo de nos organizar. E quando chegou o momento, permiti que tudo fluísse, percebi que bastava apenas deixar o coração falar. E o meu coração falou.

Ao me inclinar diante dele, não era a atitude de submissão e de sim de respeito e, porque não dizer reverência, não como se reverencia a um Deus, mas a um ser humano. Pois o mundo tem sede e fome de mais seres humanos.

Ser humano é ser firme sem perder a doçura, é ter honra e respeito com o mais fraco, é cumprir a palavra dada, é não esquecer que acima das ações deve existir o coração, é não ter vergonha de chorar e de se alegrar.
Somente uma coisa eu não falei e que ficou engasgada: pedir que ele não se fosse, que ele continuasse o que havia começado. Porém o meu coração ficou em paz, quando ele me falou no ouvido, que agora voltaria a visitar as ruas e que não nos abandonaria e nem nos esqueceria.
O Trecheiro nº 194 (Rede Rua de Comunicação, São Paulo, jan-fev. 2011)


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pra rua me levar (Ana Carolina)

Composição de Ana Carolina e Totonho Villeroy, nas vozes de Ana Carolina e Seu Jorge. Do CD e DVD Ana & Jorge (São Paulo, 2005).

Não vou viver como alguém que só espera um novo amor,
Há outras coisas no caminho onde eu vou.
Às vezes ando só trocando passos com a solidão,
Momentos que são meus e que não abro mão.

Já sei olhar o rio por onde a vida passa,
Sem me precipitar e nem perder a hora.
Escuto (n)o silêncio que há em mim e basta,
Outro tempo começou pra mim agora...


Vou deixar a rua me levar,
Ver a cidade se acender.
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você...

É, mas tenho ainda muita coisa pra arrumar:
Promessas que me fiz e que ainda não cumpri,
Palavras me aguardam o tempo exato pra falar,
Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir...


Edição de vídeo: Olímpio Martins Santana, 2008